Pré 30 – ou só mais um dia daqueles

A tapioca queima, o elevador quebra, acaba o amaciante, o ovo escorrega da mão no chão limpinho da cozinha. A pitangueira reclama do novo vaso, cai o maior temporal, acaba a cartela da dipirona. A gasolina chega no talo, o cartão de crédito fica em casa, cai a ligação com a mulher da Brastemp nos finalmente. A gente chora.

Tem dias que nossa senhora do perpétuo socorro, meu deus, jesus de nazaré, todos os deuses, santos, anjo da guarda e fada do dente. Não adianta clamar, dopar, chorar, enviar, checar, se envergonhar, marcar terapia, tomar passe, dar play na nova do John Mayer. Não dá certo mesmo, trava tudo.

Trava coluna, pescoço, lombar, as pernas, panturrilha. Trava a corrida, o funcional, a dieta, a rotina, a cabeça. O incentivo, a criatividade, a vontade, o motivo e a razão. Tem razão e não tem. Pouco importa, não dá certo mesmo.

A gente erra na roupa, escolhe a sandália errada, passa o creme trocado, não faz a cama, esquece de recolher os panos no varal, deixa o lixo aberto, não saca o dinheiro da diarista, esquece de cobrar o boleto do condomínio. Cadê aquela guia do exame? Perdi também aquele lenço. O top preto tá lavando, cadê o sutiã preto? Acho que tá me dando gripe. Ih, esqueci o remédio da tireoide! Deixa, hoje nada dá certo mesmo.

Não dá para fazer graça, nem assistir “13 Reasons Why”, nem comprar pão no mercado. Não dá para tomar aquele chope, comprar todos os presentes, aprender finalmente a fazer baliza. Não dá para tirar as fotos da viagem do celular, nem passar a vassoura na casa, nem pensar naquela dinâmica, porque precisa fechar o personagem antes.

Não dá para fazer nada. Quer dizer.

Dá é pra ficar quietinha, desejando o molezão daquele remedinho delícia, xingando a análise, mas contando os dias pra ela chegar. Dá para ligar pra mãe, pro pai – que está de aniversário este fim de semana -, para os irmãos para sonhar com nossa viagem juntos. Dá para sentir saudade da amiga, puxar o cobertor e jogar candy crush, porque já já eu passo dessa fase. Só mais uma vida, e eu passo. Vai dar certo.

Paciência: tem pra comprar?

patience-flowerOi, voltei.

Pensei em alterar o nome do blog. Ainda penso. Cansei um pouco, eu acho. Tô aqui bolando como vai ser isso. Mando todo o conteúdo para a nova página, desencano da ideia e vida que segue, espero pela mudança da lua, peço ajuda aos universitários…

E depois Maria diz que não existe nada disso de signo. Típica geminiana em crise, euzinha.

Aliás, outro dia ela me contou uma história ótima. Foi comer um temaki no Koni e flagrou um pai falando com a filha pequena por FaceTime. Ele estava chorando de saudade da menina. Quando desligou, nasceu uma conversa. Ele contou sua história, falou sobre a vida, sobre trabalho e sobre saudade. Ela falou sobre Recife, Lucas, amigos e trabalho. Também falaram sobre profissões estranhas, e filmes e música. Acabou o peixe cru, cada um foi para um canto, cada um com seu pacotinho de experiência.

Daí, outro dia, eu e Du paramos em um quiosque em um shopping para comprar quadros. Estávamos com tempo contado. Era pra ser algo rápido. Chegou, escolheu, pagou, vazou. Mas quis o destino que um dos donos da loja (a incrível Touts) fosse nosso atendente. E ele falou sobre as ilustrações, e sobre decoração, e sobre ser engenheiro e amar design, e sobre UFRJ com o Du, e redes sociais, e perfis, e Instagram, e “adiciona aí”. Acabou a compra, cada um foi para um canto, cada um com seu pacotinho de experiência.

Em comum: tempo, paciência e oportunidade.

Já reparou como a gente anda engolindo oportunidade? De conhecer gente nova, de saber histórias, de entender novos olhares, de ampliar o leque. A gente tem tempo, só não sabe dividir. A gente não tem é paciência, não sabe se a pessoa vai ser mala, se vai falar lé com cré, se vai bater o santo… E se não bater? É ponto também. Tá tudo bem, tudo de boa. É tudo experiência.

Todo mundo tem algo para contar e todo mundo tem algo a aprender. O exercício é sair mais da própria concha, é alongar o corpo e bater a porta de casa com disposição para cruzar vários caminhos, não só do nosso umbigo. Dá um tempo nesse negócio que seu iPhone resolve tudo, que o Google sabe de todas as coisas, que você é tímido, chato ou mimizeiro. Fala olhando no olho, entende o que o outro quer dizer, vê se ele precisa de alguma coisa, seja gentil.

A vida é mais legal quando se troca informação: como faço pra ir de cá pra lá?, tem um livro bom pra indicar?, por que você não acredita em tarô?, qual é o lado certo do papel alumínio no forno?, escuta só essa música!, tem um bar incrível escondido naquela rua!, já viu a série nova?, como vai sua filha?, me ajuda com esse texto?, qual novo nome posso colocar nesse humilde blog?

😉

 

Sobre escolher ficar

Couple

Essa rolou faz bastante tempo e veio de uma conhecida das antigas. Eu não tinha mais contato com a figura, encontrei por acaso e ela tinha acabado de se separar: “você vai ver… No começo é uma delícia, vocês juntinhos, a casa arrumada, o namoro, o vaso de flores… Depois, essa organização é missão impossível. Tudo degringola. A sala fica uma zona, o cesto de roupa pra lavar só lota, o vaso de flor fica vazio, não existe mais conversa nem risada, o sexo, pufff, se rolar uma vez a cada dois meses é muito. Daí separa, né?!”

Eu tinha acabado de me mudar com o cara que era o amor da minha vida. Fiquei assustadíssima, tive sonhos com o caos. No dia seguinte, enchi a casa de flores, bati três máquinas de roupa, ele cozinhou, transamos, e repetimos a dança nas semanas seguintes. Imagina, eu não poderia nunca deixar que a gente, que tinha uma sintonia inacreditável, encalhasse nesse marasmo. Bateu o pânico. “Deve ser essa a cara da tal rotina”, pensei.

Passa o tempo. Muito tempo.

Essa semana, conversando com outra amiga, contei que a gente completa 12 anos juntos em dezembro, sendo desse total, cinco sob o mesmo teto. A imagem daquela amiga 1, angustiada e ressentida com a separação, pintou na cabeça na mesma hora. Parei, congelei e analisei.

Não temos flores novas todas as semanas, mas cuido dos três vasos fixos que tenho em casa atualmente. Inclusive, minha orquídea dá sinais que está bem feliz e que deve florir de novo em breve. O cesto de roupa suja é lotado sempre, a gente tem uma preguiça eterna de lavar roupa, mas isso pouco importa. E olhar para o mesmo alguém depois de 12 anos, sentir aquele mesmo tesão adolescente e escolher ficar é um espetáculo.

Eu encaro a rotina de frente escolhendo ficar. Eu escolho ficar hoje, e amanhã também devo escolher. Porque vale a pena regar aquele vaso junto dele. E vale a pena contar como foi meu dia, sair sozinha com as amigas e encontrar com ele depois, rir lavando louça ou sentados no sofá com coberta nas pernas, ou correndo na orla, ou na sala de cinema, ou na nossa padaria, ou na ostentação, ou no perrengue. Precisa valer a pena, senão é tempo escorrendo pelo ralo. É daí sim cabe uma bifurcação na história.

Caminhar junto é difícil pra caramba. Não é por número que se mede uma vida a dois. Quantas vezes vocês viajaram juntos? Quantas vezes vocês caminharam de mãos dadas no parque? Quantas selfies vocês publicaram juntos? Quantas vezes transam por semana? Quantos filhos querem ter? Quem paga a conta da pizza? Qual será o tamanho do seu espaço? E do espaço de vocês juntos?

Larga o lápis, fia. Vai beijar na boca. Seja emoção pelo menos um pouquinho. A razão anda bem melhor quando o coração está em paz. Para, congela e analisa. Fica. Escolhe ficar se vale a pena. Mas só se vale a pena mesmo. Garanto que vai te dar um orgulho danado de todo o trabalhão assim que o primeiro botão de orquídea florescer de novo  😉

Medo que dá medo do medo que dá

c3bcf6c9718d93b337974a711d8d405bSou medrosa, isso é fato. Com o passar dos anos tenho ficado um pouco pior. Digo “tenho medo” muitas vezes por dia, analisei isso sem querer querendo. Tenho medo de barata, de sequestro, de escuro, de susto em “Stranger Things”, de túnel, de elevador, de lugar fechado com muita gente, de ficar sozinha na vida, de ficar sem celular, de perder o amor, de levar fora de amigo, de não agradar, de terapia, de dirigir, de ficar velha chata, de não conseguir engravidar fácil, e vai.

Parei para tentar entender o fenômeno outro dia com a Pat, a caminho de Curicica. Ela, mãe de dois, tem outros motivos para se preocupar. Ela morre de medo de não estar aqui para Olivia e Tomás. Justo. Tentamos separar os tipos de medo, partindo sempre do princípio que isso é um troço que dá por ignorância. Digo no sentido do novo. A gente não sabe o que vem depois da curva, e isso dá uma insegurança do cacete.

Num primeiro grupo estão as situações que podem resultar em tragédias reais. A gente tem medo de saltar de asa-delta porque, enfim, podemos morrer. Eu tenho medo de dirigir, porque penso que pode rolar um mega acidente sinistro. São coisas que podem sair do controle e dar muito errado mesmo. É um risco, sempre. Ou vai, ou racha.

Num segundo grupo vem o tipo que nasce dessa insegurança do desconhecido. Eu não sei se vai ser difícil ou fácil engravidar, se vou ser boa mãe, se vou ficar bem de franja. Você não sabe se o emprego novo é bom, se o sol da tarde na nova sala vai fazer bem para suas plantas, se o crush do Tinder vai vingar, se sua avó vai estar aqui no seu próximo aniversário. Dá medo mesmo, mas fazer o quê? Só viver para saber (tô muito zen hoje pra chegar a essa conclusão assim, de maneira branda. Deus meu livre cruz credo).

Para fechar, no terceiro grupo, tem o incontrolável vindo do inconsciente. Meu medo de lugar fechado cheio de gente é absurdo e incrivelmente mais forte do que eu. Tento dominar esse monstro – sempre, e toda vez – nos primeiros 20 segundos. Depois entro em parafuso. Com isso, amigo, não vale o risco. Esse medo (essa fobia, na real) não te dá opção nem rota de fuga. Eu não quero saber quem vai me tirar do elevador e nem como, eu só quero sair de lá. Maluca mesmo, fora da casinha. Só a terapia – com cerveja, glúten e muita gordura-trans – para acalmar a alma.

Ainda rola um apêndice que é o famoso drama. Eu banalizo muito o medo. Faço muito mais mimimi e assumo. Medo de barata, escuro, de ouvir aquela música X que me lembra aquela situação X…? Puf, tudo balela. É medo do medo que dá, como canta Julieta Venegas.

Falando com a Duda, num almoço, ela levantou a bola para o ataque: só dá medo porque não temos controle de nadica de nada. Eu, que gosto de planilhar a vida, escrevo emails cheio de bold e cores, organizo o salário para as despesas do mês e não deixo nem por um decreto mensagens pendentes com aquela bolinha vermelha no Whatsapp, me lasco. Nem eu e nem você sabemos o que vem amanhã. E mesmo assim a gente precisa dormir, e acordar, e levantar e trabalhar e enfrentar os paranauê tudo.

Para o que tem solução, quero tentar encarar. Faço um compromisso aqui. Para o drama, prometo maneirar (apesar de ter espírito de Maria do Bairro dentro do coração). Para o que ainda é mais forte que meu juízo, me prontifico a ligar para Lara em breve para retomar a análise. E é aquela coisa, né: vai, e se der medo, vai com medo mesmo (e três gotinhas de rivotril).

Play na Julieta:

Pronto, agora a gente já pode conversar

imageSempre cantarolo a trilha-sonora de “Juno” quando ando na rua com um suco do BB na mão. Não durmo de janela aberta com medo de entrar barata (e também pra deixar tudo escurão quando começa a amanhecer). Não gosto de doce, azeitona, palmito e cogumelo. Aprendi a gostar de melão, mamão e tomate. Estou adorando o novo CD do Justin Bieber (tô tentando entender como isso aconteceu), e vou de Norah Jones até Cartola no banho, passando por Florence e The Killers.

Queria dirigir muito bem, mas tenho medo. Queria conhecer a Indonésia, mas tenho preguiça da viagem. Queria morar em Paris, ou San Diego, ou numa ilha em Angra. Mentira, eu ia ficar em pânico numa ilha em Angra em dias de tempestade. Queria tocar violão igual, sei lá, a uma profissional. E viver de música.

Tenho preguiça de DR, tenho preguiça de mimimi e tenho preguiça de quem cuida mais da minha vida do que do próprio umbigo. Não gosto das minhas mãos, mas não quero mais colocar silicone, e aprendi a lidar com o ‘pãozinho’ que tenho nas laterais. Cabelo com volume, bocão, olhinho de vírgula, biquíni de lacinho: check, check, check and check. Tomei preguiça de neura. Não tenho (nem eu, nem você) tempo para neura.

Estou treinando para correr 10km numa tacada só (o ‘pãozinho’ tá diminuindo com a corrida), ainda não gosto nadinha de musculação, e queria ter barriga tanquinho à la blogueira. Pensando bem, queria não. Amo hambúrguer, amo cerveja, amo festa, amo dançar com bracinhos para o alto, olhinho fechado, um coque todo bagunçado e blusinha solta. Sem neura e sem despertador.

Escovo os dentes de olho fechado, durmo com camisetão, não passo protetor solar diariamente e curto esmalte azul. Não tenho paciência para post politizado, e nem pra cultivar manjericão. Amo álbum de foto de família, amo livro de receita da vó e amo deitar na grama pra olhar o céu azul. Amo o colo da minha mãe e a voz do meu pai me acalma. Morro de saudade de virar a noite montando Lego com meus irmãos, e não vou esquecer nunca das crises de riso impagáveis entre amigas.

Digo que sou Rivotril, mas na real sou Passiflora. Não tô com grana pra fazer terapia, mas deu pra reparar que não tenho muito grilo em falar coisas daqui e dali, né? Tá ótimo, então, já podemos conversar. E você, como é?

 

“Tudo indo, minha filha…”

postTrabalho longe de casa e vivo de carona para fugir do insuportável 332 – Rio Sul / Projac. Aliás, que todos os santos protejam as boas almas que me ajudam diariamente. É meta de 2016 (assim como em todos os anos) perder o medo do volante e virar gente grande. Até ser dominada por uma onda de coragem, sigo na peregrinação.

A questão aqui é a seguinte: o ponto final de muitas caronas é a José Linhares, pertinho do Plataforma, esquina com a Lagoa-Barra. Paro ali, ando alguns metros e viro na Conde de Bernadotte, a rua da minha avó Eunice. A vontade ali, na bancadinha de esquina do Desacatto, é de tomar um shot de Rivotril.

Parece que a rua tem o cheiro dela. Do lado esquerdo, a Cobal e a barraquinha do João, onde ela comprava verduras. Na frente, a finada Sendas (hoje Pão de Açúcar). Um pouquinho adiante, o Chic Chicken, onde ela exagerava na compra do frango semanal. Ainda tem o Davi, que fica na porta da garagem, aquele rapaz que ajudava a levar as sacolas do mercado até o elevador, e a casa da tia Bilu, que desde do dia 20 de junho de 2015 nunca mais teve as janelas fechadas. Acho que o Jan esqueceu. Ou pouco importa mesmo.

Se fosse em outros tempos, eu entraria no número 26 da rua, mandaria um ‘oi’ para o Ronaldo, porteiro, e subiria até o andar dela para pegar um copo de água e perguntar como foi o dia. “Ah, tudo indo, minha filha. Tudo indo…”. Eu reclamava taaaanto desse “tudo indo”. “Vó, fala, pelo menos uma vez, que está tudo maravilhoso!”.

Enfim… Tenho um medo louco de mudar. É quase pior que meu medo de lugar fechado, ou de nunca mais ver o Du. Mas talvez a onda de coragem que promete se aproximar em breve para me fazer assumir o volante possa também me ajudar nessa questão. Andar por ali abre uma ferida no meu coração. D.i.a.r.i.a.m.e.n.t.e. Não passar mais por isso é jogar terra no buraco do luto? Sim? Não? Ou pouco importa mesmo?

Outro dia a Lara me mandou uma mensagem perguntando quando eu voltaria para nossa terapia semanal. Respondi que estou numa fase fitness, e com minha conta bancária é assim: ou malho, ou faço terapia. Por isso esse texto, e tanto outros. É importante falar ou escrever ou chorar ou rir por elas, vó e tia. A gente não discute isso normalmente, né? “Não pode falar de morte, imagina!”. Por quê? Eu acho, por exemplo, o trabalho do pessoal do Vamos Falar Sobre o Luto incrível.

Vale discutir (e divulgar) se meu apego todo é normal, se demora para passar, se tudo bem eu fugir da rotina e guardar por um momento todas as fotos, se tudo bem eu querer trocar de bairro sem parecer covarde ou egoísta. Diz que vale. E diz, pelo menos uma vez, que tudo está maravilhoso. Porque está. Só que de um jeito diferente. Mas isso pouco importa mesmo.