É só esperar que passa

“Não me vem com chá de hibisco ou erva-doce. Pinga uma cachaça para fazer logo o efeito desejado. E falar que você não se incomoda com mosquito também é mentira purinha. Eu carrego o Off na nécessaire pra tudo quanto é lugar, junto com uma dipirona, dramim e tandrilax (que é vida).”

Essa sou eu há 20 dias, começando as férias mais solares da minha vida. Hoje é o penúltimo dia, e que pecado nunca ter tirado uma folga considerável para curtir a natureza. Que poder de cura revigorante – junto com uma dipirona, elas são imbatíveis 😉 Esqueci dos problemas, das contas, das calorias, dos sapatos fechados. Só quis saber de bons amigos e belas histórias de vida. Obviamente, já estava louca pra voltar, porque não sobrevivo sem a cidade e o barulho da britadeira na rua. Mas desacelerar é tão importante, né… Voltar a ouvir, a ter paciência, a aprender, a olhar sem hora marcada.

Na primeira parte das férias, conheci rapidamente um cara ótimo. Lá pelas bandas de Angra dos Reis/Ilha Grande, descobrimos uma praia pequena, inacreditavelmente linda, quase vazia tirando uns dois ou três que dormiam perto da sombra de um coqueiro. Enquanto a gente explorava minimamente a região, parou por ali um casal para limpar o peixe do almoço na beira da água. O nome dele é Robinson, mas “todo mundo fala Jão“. Daí, segue:

– Como é o nome desse lugar?
– Praia de Passaterra. É tudo Sítio Forte, mas essa é a primeira enseada.
– E o senhor mora aqui?
– Moro…
– O senhor deve ser estressadão, né, rs?
– Ahhhh sou, nósenhora… Sou muito (com uma risada contagiante). Tô aqui há seis anos, eu e minha senhora. Sou construtor. Aquela casinha amarela lá em cima, tá vendo? É a nossa.
– Uau! Que paraíso! O senhor não fica entediado?
– Nããão… Tem muita coisa pra fazer de trabalho. E quando não tem coisa, não tem coisa.
– E como faz se alguém passa mal, por exemplo? Cadê a farmácia?
– A gente espera o barco passar pra levar na cidade… Passa de 20 em 20 minutos durante o dia.
– 20 minutos??? E se a pessoa tiver um treco durante essa espera?
– Ué, se tiver um treco, teve, ué. E qualquer coisa também, é só esperar que passa. Às vezes precisa nem do barco… Toma um chá, descansa um pouco e pronto.

Aprendi com Seu Jão que estar de férias é entrar num processo de cura da mente. Depois, do corpo. A gente precisa parar, esperar o barco chegar para ver se realmente tem que embarcar nele. A gente precisa olhar para dentro e ver se tudo não passa de uma ansiedade sem sentido, de uma crise de estresse covarde.

Respira.

Olha aquele verde que coisa mais linda. Olha o siri querendo pegar no pé de alguém. Olha aquele peixe tranquilão só nadando, nadando, nadando… Só olha e respira. Meditação deve ser isso: esvaziar por completo para depois preencher tudo de paz. Sol, sal, tempo, amor, amigos e histórias: meu rivotril in natura.

A Dani vai voltar pra São Paulo

Outro dia, a Maria Eduarda me perguntou se eu tinha vontade de voltar para São Paulo. Passei 15 anos (é isso tudo mesmo?) lá. Em certo momento, nesse meio de caminho, eu era mais paulista do que fluminense. Me preocupei com essa graça alcançada: estava cada vez mais difícil manter o charme do sotaque, e eu quase me rendi ao a-ê-i-ô-u.

Eduardo não moraria, naquela época, em São Paulo nem que o mar virasse sertão, e a selva de pedra virasse a ponta do Arpoador. Então, era o momento. Liguei pra vovó, montei minha mala, finalizei o estágio no Estadão e fui pegar sol no Posto 11. Era o início da minha idealizada vida como carioca quase oficial (a certidão está aí para me lembrar que Volta Redonda é o nome da cidade de nascimento. E isso não é efetivamente uma lamentação).

Foi tudo muito bom, e tudo muito bem. Ainda está sendo. A vida é mais leve no Rio, eu disse pra Maria Eduarda. O horário de verão faz todo sentido aqui. Assistir novela de madrugada com minha vó fazia todo sentido pra mim. Encontrar com o Eduardo a qualquer hora, tomar suco de conde com maracujá e caprichar no sotaque: tudo fazia – e ainda faz – bem mais sentido.

Mas a Dani vai voltar para São Paulo nesta semana. E ela está muito feliz com isso. Muito mesmo. E daí a Maria veio com essa pulga: “meNina, você tem vontade de voltar pra São Paulo?”. Porque Maria sonha com Recife, seu amor, quase todos os minutos do dia. E Dani planejou o retorno perfeito pra terrinha por quase todos os meses como moradora de Ipa-Copa. E eu? Fico onde?

Sou de lá e daqui também, marinheiro. E isso atesta e justifica minha casa 10 em Gêmeos. Sou arroz integral e Cheddar McMelt, clássico e folk, Spice Girls e Eça de Queiroz, Rio e SP. Difícil equilibrar tanta coisa, mas o ascendente em Virgem anda fazendo um bom trabalho.

Essa ponte entre a raiz-matriz e os galhos que a gente espalha por aí sofre, por vezes, algumas interferências e dificuldades. É o sonho que faz a gente seguir em frente, voltar ou seguir, e ancorar barco. A manutenção é feita com uma ponte-aérea vez ou outra para um chopp entre melhores amigos. Ajuda também: um quadro aqui, uma florzinha ali e um belo dum telefonema para minha mãe. Acalma alma.

O Bonno vai ficar mais feliz no frio de SP, Dani, e você vai poder sair com a Mari para fazer feira e assistir ao DVD do César Menotti e Fabiano sempre que a vovó pedir. Além disso, aproveita que o tempo seco deixa o cabelo melhor para você ficar ainda mais gata e humilhar as “inimigaiz” tudo! Vai na fé da sua verdade, que não costuma faiá.

Hoje é dia de Bruna

Oi, Biba!

Oi, Biba!

Outro dia Maria (a Eduarda) disse que nossa sintonia só pode ser coisa de signo. Bestas, nós duas, que lemos Susan Miller, mas não entendemos lhufas sobre o assunto. Eu, que sou de Gêmeos, peguei logo o bordão pra sacramentar a nova amizade. Ela, que nem sei de qual casa do zodíaco pertence, entrou na onda.

Lembrei disso hoje, meio que do nada, e não por Maria – que ainda vai ganhar um texto só dela como já ganhou meu coração e de mais uma dúzia em Curicica. Lembrei por Bruna.

Acordei googlando: quem nasce dia 8 de março é o quê? “Peixes”, veio a resposta. “Combina comigo! Marina, que é aquela que veio do mar, tem uma amiga peixinha”. E Bruna, o que é? “Morena”, falou o senhor Google. “Olha! Assim como a minha música!”.

Se juntar lé com cré, Gêmeos bica com Peixes. Como eu não acredito nisso, joguei o mapa astral para escanteio e entrei na vida dela como uma dançarina de cancan invade o palco. Bruna tem um temperamento afiado, mas parou para assistir ao show. E a vida se encarregou do resto.

Se ainda sou dançarina, ela está mais para uma diretora teatral. Quem um dia terá palavras para comprovar o que digo é a outra Maria (a Alice), que veio do ventre da peixinha morena que hoje completa mais um ano de vida. Que mãe mais cheia de zelo essa sua, Pinguinha.

É meio viagem essa história de analisar como começou uma amizade. Além de ser cafona. Eu não faço ideia de quando passei a ter Bruna como indispensável. Mas fato é que não passo dois dias sem falar com ela e nem com os outros integrantes do grupo que ganhou o título de “meu segredo contra as crises de ansiedade”.

E é por isso que hoje meu coração só transborda de agradecimento, orgulho e alegria. Quero gritar parabéns no Recreio, no Leblon, em Angra, presas num elevador micro, ou livres em um sonhado cruzeiro pelas águas da Jamaica. Joga mais uma vez as cartas, cruza as informações dos búzios e confia: Gêmeos e Peixes dá uma liga inquebrável. E não é coisa de signo, não. É coisa de outra vida mesmo ❤️

 

O coração (não tão) racional de Léia

Outro dia marquei pé e mão com a Antonia e a Léia. A primeira eu já conhecia, é mais quieta, na dela. Com a segunda eu nunca tinha puxado papo. Era a oportunidade perfeita. Ela é toda vaidosa, mas não dá muita confiança, não. Fui quebrar o gelo. Tinha acabado de ler sobre a história da mãe que foi bombardeada por internautas após postar no Facebook a real sobre sua experiência com a maternidade. E Léia deu o play:

– Nunca quis ter filho, porque seria igual essa menina aí. Não tenho vocação, nunca tive, e nunca senti vontade de ter. Gosto das minhas coisas, da minha vida, do meu café, de ficar sozinha.
– E marido?
– Pra perder meu posto de rainha? Nem maluca. É só você ver: quando a pessoa namora, é ‘linda’ pra cá, ‘meu amorzinho’ pra lá… Agora, casa pra tu ver! Num pulo vira ‘maluca’, ‘otária’, corna… Quero isso, não. Nem lavar cueca de ninguém. Namorar, eu namorei e namoro muito. E fora de casa. Na minha não entra.
– E seus pais nunca te pediram neto?
– Sempre. E sempre falei pra eles se contentarem com meus sobrinhos. Nunca dei esperança. Já fui muito chamada de quenga, de sem coração, de vagabunda… Imagina você, filha de coronel, do interior do Ceará… Mas nunca mudei de ideia. Vim pro Rio em 72 com a Margarida. Aproveitei que meu pai estava fora da cidade, arrumei a mala escondida, pedi dinheiro pro Manoel, compadre do meu pai e dono da venda da vila, e me joguei num ônibus com ela. Prometi ali: se eu gostasse do Rio de Janeiro, nunca mais colocaria os pés no Ceará. E assim foi feito.
– Você nunca mais viu sua família?
– Viiii, claro… mas eles moram em Brasília hoje. Painho já estava arrumando as coisas para levar todo mundo pra lá quando me mudei. Assim como o marido da Margarida.
– E ela hoje, como está?
– Cheia de filho, gorda, morando em Niterói. Aproveitamos muito essa cidade quando chegamos aqui, mas ela escolheu outro caminho. Não culpo: o marido dela é incrível, e eles são o único casal que eu admiro.
– E você nunca encontrou ninguém que quisesse se casar com você?
– Pablo, uma vez. Espanhol, lindo, com um corpo maravilhoso e rico. Me colocava toda semana para dentro da Hippopotamus. Eu era linda, magrinha… E apaixonada pelo Pablo. Ele já tinha um filho com a Miss Espanha da época, mas queria outro. Pulei fora depois de 14 anos.
– E nunca mais encontrou com ele?
– Só em sonho. Mas nunca me arrependi. Aproveitei tudo que tinha de aproveitar. Na vida a gente tem que aprender a dar ponto final nas coisas para seguir com nossa verdade. Caso contrário, hoje eu estaria tal qual Margarida, lavando cueca. Deus que me livre (risos)!
– Ah, mas não é todo mundo que vive assim. Pelo contrário…
– É sim, senhora. Casamento não dá em nada. E quer saber? Nem amor. O lance é só sacanagem, é não levar a vida tão ao pé da letra. É não ter preocupação.

(Silêncio por alguns segundos)

– E aí, vai passar qual cor?
– Acho que vermelho. Pode ser 5ª Avenida. Ou Gabriele, melhor.
– Boa escolha. Aliás, esse era o tom do conversível do Pablo…

Oh, vida…

“Pelo menos ela vai morrer magra”

fofocaNum restaurante na carioquíssima Lapa. Na mesa, três senhoras colocando o papo em dia:

Senhora 1: Menina, fui visitar a Dayse ontem.
Senhora 2: E aí, como ela está?
Senhora 1: Melhor, está se recuperando. Ainda com muita dor, coitada.
Senhora 3: Sabe que minha cunhada fez essa mesma operação da Dayse, né? Ficou ótima. Aproveitou para puxar gordura da perna e da barriga pro peito. Nem precisou de silicone. A perna virou peito mesmo. E colocou aquela tela na barriga, ficou magrinha, magrinha. Cês precisam ver que bonito.
Senhora 1: Ah, mas a Dayse parece que não vai ficar tão bem assim, não… Ela nem quis colocar a mama de novo. E o Celsinho tava me contando que os últimos exames não foram animadores. Parece que o câncer já se espalhou…
Senhora 2: Ah, meu Deus… Mas que horror. Ela se sacrificou tanto para fazer a cirurgia…
Senhora 3: Muito triste mesmo.
Senhora 2: Mas que bom que sua cunhada ficou boa, Marlene.
Senhora 3: Minha cunhada?
Senhora 2: É, ué! Você não comentou agora que ela ficou linda depois da cirurgia?
Senhora 3: Ah, nããããão. Linda ela ficou mesmo, mas já tá pra morrer, boba. Deve ser coisa de o quê? Dois, três dias… Uma semana no máximo e óh… Morre.
Senhora 1: Sério?!?! Gente…
Senhora 3: Mas pelo menos ela vai morrer com as peitcholas e magra, né! HA-HA-HA!

A magoada do 161

Crédito: Reprodução Internet

Crédito: Reprodução Internet

Foi no 161 Lapa – Leblon. Passei da roleta, sentei pertinho da cobradora e começou o show. Ela no celular, visivelmente alterada, com um carioquês carregado.

— Alecsandro, escuta. Escuta, Alecsandro… Me escu… Me escuta, homem! Eu já te falei, Alecsandro. Eu não vou falar de novo. Só vou falar mais uma vez. Não vou repetir. Eu não estou brincando dessa vez, Alecsandro. Me escuta… Me escuta… Me escu… ME ESCUTA, Alecsandro. Eu não vou mais te atender, eu não quero mais ver teu número aqui no meu celular, eu não quero mais saber da sua… Não… Não… Tô… Tô sim… Tô falando sério, sim. Eu não quero mais saber da tua vida, Alecsandro. Ham… Ham… Ham… Você já falou isso, Alecsan… Ham… Ham… Tô ouvindo… Não. Não. Porque não! Eu não quero mais sofrer, eu estou cansada. Ham. Ham. Tô em Copacabana. Não. Não. Tu vai fazer O QUE no ponto final, Alecsandro? Eu não quero te ver! Ham. Ham. Ham. EU CHEGO NA GARAGEM 5H30. Tu vai acordar CINCO DA MANHÃ pra me ver? Alecsandro, se tu aparecer na garagem eu vou te ignorar, Alecsandro. Não. Não. PORQUE NÃO. Eu já cansei… Eu não quero mai….

Caiu a ligação. Ela mete um tapa com raiva no caixa. O ônibus inteiro, de rabo de olho, acompanha a novela ao vivo. Ela liga de novo para o Alecsandro:

— Com quem você tava falando? Com quem? Antes de cair a liga… Com qu… NÃO ERA O JOÃO COISA NENHUMA QUE JOÃO NÃO FAZ TU DESLIGAR O TELEFONE ASSIM DE SUSTO.

O motorista dá um toque.

— Dani, calma, fala baixo aí, mulher. Olha os passageiro tudo.
— Eu PRECISO fazer isso, Antônio.

E volta ao drama.

— Alecsandro, eu não sou idiota. Você estava falando com aquela VACA da Suzana. Essa vagabunda vive te rodeando por aí que eu sei que o povo me conta tudo, Alecsandro. ERA ESSA VACA SIM. Faz o seguinte, Alecsandro. Eu vou te dar um tapa sem mão (!), vou te fazer sofrer. Tu fica com essa RIDÍCULA da Suzana, essa VACA sem amor, e ME ESQUECE. Seu pai me ligou dizendo que tomou um tombo e se machucou inteiro. Eu vou VISITAR O SEU PAI NO SÁBADO ÀS 11 DA MANHÃ. Não quero ver você em casa, ouviu? EU NÃO QUERO TE VER LÁ. Você faz favor de arrumar alguma coisa pra fazer, a Suzana pra comer (!), uma roupa pra lavar, MAS NÃO ME APARECE NO SÁBADO ÀS 11H LÁ! E não me liga mais! Só manda mensagem porque eu tô trabalhando. PASSAR BEM!

Ah, o coração magoado é tão pedinte sem querer ser, né?