Eu estava aqui pensando…


Oi. Acho que quero mudar o corte – de novo. O que você acha? Talvez seja o cabelo o que mais muda em mim. Não, espera. Tem mais. A gente listou um monte de coisa ontem – sobre nós e sobre vários outros.

Endereço, trilha-sonora, a terra dos vasinhos da varanda, a vista lá pra fora, o motorista, a dose do remédio, a marca da base importada, a bolsa do dia a dia. Muda a gíria do momento, o óculos de grau, o grau, a temperatura, a chaleira, o pão branco pelo integral, o brinde. Muda o motivo da risada, a capa da almofada, o tom daquela música, o ponto do ônibus.

Muda a pauta, muda o orçamento, muda a rotina da manhã, muda o objetivo da corrida. Não se corre mais, se vive. Muda a urgência, o olhar, o toque, a mão, o lado do beijo. Muda a opinião, a razão, a verdade, mudou tudo mesmo? Pode mudar, e depois, se quiser, aperta o reset. Muda a psicóloga (ai que preguiça), muda o drink, muda a proteína. Muda por fora e por dentro, pra pior e pra melhor.

O contrato, o quadro da sala, o lado do vinil. A aposta, o gol, o nome do porteiro. A cor das cortinas, o horário do voo, o deadline. O show preferido, o abraço querido, a atenção redobrada. O dia do pagamento, a senha do cartão, camisa pra dentro ou pra fora?, Gabriela ou Audrey?, Galeão ou Santos Dumont?.

Só não pode mudar a sensação boa que é pular de paraquedas. Não pode mudar o vento na cara, os braços abertos e a paixão. Se a gente conseguir garantir isso aí, tá tudo de boa. Dá pra ir ao fim do mundo e voltar sem medo de ter medo de mudar – apesar de ser de Gêmeos com ascendente muito bem estacionado em Virgem.

Já falei demais. Vou logo marcar um horário no salão pra ver o que tem ali na esquina da frente. Vou levar um casaco pra você (vai que faz frio, né?). Me encontra lá? Então, beleza. Beijo, tchau.

Este é um texto sobre comida. E sobre vida também

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Tracei a meta assim que 2017 cruzou a esquina: me comprometo a malhar todos os dias, certinho, de segunda à sexta, e a encarar o “longão” aos sábados (ou domingos). Chego aos 30 anos em junho – e já estou apavorada, apesar de segurar a cara de “está tudo bem, tudo certo, sou empoderada”. Tenho cada amiga maravilhosa que se garante com uma plenitude invejável, de maiô decotado, brilhos, curvas, carão, pochete e pose. E é mentira descarada dizer que sou da mesma linha. Puff, sabe de nada, coração. É muita corrida e terapia no lance. Posso perder minha carteirinha de feminista por esse desabafo?

É do ser-humano ser um eterno insatisfeito. E é difícil pra cacete aceitar e adorar o que cada um considera um “defeito” (no corpo e na personalidade). Sobre os 30, tem muita gente (inclusive eu) que enxerga como um deadline. “O metabolismo muda por completo. Emagrecer passa a ser tarefa épica-heróica-game thronística. Muda cabelo, pele, humor, unha, ruga. Muda tudo”. E agora, cacete? Eu, que amo uma batata frita, que tô tentando eliminar a gordura lateral há 29 anos e ainda não aceitei o tamanho do meu quadril, fico como? Me taquei na esteira.

Balanço da meta hoje, 12 de fevereiro: por incrível que pareça, eu posso ganhar estrelinha com chuva de palmas. Consegui malhar todos os dias, e peguei gosto pela corrida. Mas só consegui essa proeza porque sei que a batata frita me aguarda no sabadão, glória ao senhor, amém, igreja. Não vou mandar o mimimi que comecei a correr só pra controlar o colesterol. Meu exame de sangue estava todo errado mesmo, mas mais do que isso, queria perder peso e ficar gostosa no limite que meu corpo pode ser.

Comecei correndo 1 minuto para 4 de caminhada. Era pesadíssimo pra mim. E fui aumentando, invertendo os números, traçando metas de distância. Três vezes por semana, 5k. E fui querendo diminuir o tempo, fazendo musculação pro joelho aguentar o tranco, correndo na rua, aprendendo a respirar. Quero longão de 7k no mínimo aos sábados. Tem dias que é chato pra cacete. Troco pela corda, pelo circuito, por qualquer outra coisa. Mas hoje não deixo mais de ir. Ainda é pelo corpo-musa-fitness? Com certeza. Mas é também pelo prazer em saber que hoje eu controlo minha cabeça para completar aquela guerra. Parece besteira, mas não é. É uma alegria sem fim perceber sua evolução – e sem abandonar a batata frita.

Outro dia vi uma matéria com uma nutricionista francesa que é contra esse negócio de proibir certos tipos de alimento. O que precisa mudar é o nosso jeito de encarar a comida. Ela é contra também o “dia da jaca”, porque a gente acaba comendo muito mais do que a gente realmente quer só porque é “o dia da jaca”, saca? Ela diz que se você se permitir comer o que quer, o desafio é fazer em pequenas quantidades e dosar a vontade. Quer chocolate? Come um quadradinho hoje e outro amanhã. Não precisa traçar a barra toda. Quer batata frita? É só pedir. Amanhã a gente compensa na academia, e fica todo mundo em paz.

É aquela velha história do equilíbrio, né? Ninguém aqui é artista do Cirque du Soleil, mas é cada acrobacia que a gente sonha em fazer. Comece a traçar a sua – seja ela comportamental ou não. Bora calçar o tênis e respirar fundo. Os 30 estão logo ali, e sou eu que preciso mudar essa fama deles, e não o contrário.

A Dani vai voltar pra São Paulo

Outro dia, a Maria Eduarda me perguntou se eu tinha vontade de voltar para São Paulo. Passei 15 anos (é isso tudo mesmo?) lá. Em certo momento, nesse meio de caminho, eu era mais paulista do que fluminense. Me preocupei com essa graça alcançada: estava cada vez mais difícil manter o charme do sotaque, e eu quase me rendi ao a-ê-i-ô-u.

Eduardo não moraria, naquela época, em São Paulo nem que o mar virasse sertão, e a selva de pedra virasse a ponta do Arpoador. Então, era o momento. Liguei pra vovó, montei minha mala, finalizei o estágio no Estadão e fui pegar sol no Posto 11. Era o início da minha idealizada vida como carioca quase oficial (a certidão está aí para me lembrar que Volta Redonda é o nome da cidade de nascimento. E isso não é efetivamente uma lamentação).

Foi tudo muito bom, e tudo muito bem. Ainda está sendo. A vida é mais leve no Rio, eu disse pra Maria Eduarda. O horário de verão faz todo sentido aqui. Assistir novela de madrugada com minha vó fazia todo sentido pra mim. Encontrar com o Eduardo a qualquer hora, tomar suco de conde com maracujá e caprichar no sotaque: tudo fazia – e ainda faz – bem mais sentido.

Mas a Dani vai voltar para São Paulo nesta semana. E ela está muito feliz com isso. Muito mesmo. E daí a Maria veio com essa pulga: “meNina, você tem vontade de voltar pra São Paulo?”. Porque Maria sonha com Recife, seu amor, quase todos os minutos do dia. E Dani planejou o retorno perfeito pra terrinha por quase todos os meses como moradora de Ipa-Copa. E eu? Fico onde?

Sou de lá e daqui também, marinheiro. E isso atesta e justifica minha casa 10 em Gêmeos. Sou arroz integral e Cheddar McMelt, clássico e folk, Spice Girls e Eça de Queiroz, Rio e SP. Difícil equilibrar tanta coisa, mas o ascendente em Virgem anda fazendo um bom trabalho.

Essa ponte entre a raiz-matriz e os galhos que a gente espalha por aí sofre, por vezes, algumas interferências e dificuldades. É o sonho que faz a gente seguir em frente, voltar ou seguir, e ancorar barco. A manutenção é feita com uma ponte-aérea vez ou outra para um chopp entre melhores amigos. Ajuda também: um quadro aqui, uma florzinha ali e um belo dum telefonema para minha mãe. Acalma alma.

O Bonno vai ficar mais feliz no frio de SP, Dani, e você vai poder sair com a Mari para fazer feira e assistir ao DVD do César Menotti e Fabiano sempre que a vovó pedir. Além disso, aproveita que o tempo seco deixa o cabelo melhor para você ficar ainda mais gata e humilhar as “inimigaiz” tudo! Vai na fé da sua verdade, que não costuma faiá.

Coragem para pintar novas paredes

HomeAntes de qualquer coisa, aviso: este não é mais um post deprê sobre morte e luto. Juro! 🙂

Hoje seria um típico dia de preguiça na casa da minha avó. Eu curtia todas as minhas raras folgas semanais na cama dela, fofocando sobre o megahair das atrizes da novela das 21h, ou sobre aquela prima que separou de novo, ou sobre o jantar que o Du tinha preparado na semana anterior.

Enfim, como acabou o milho, acabou a pipoca e não tenho mais Eunice por aqui, resolvi assistir ao fim da temporada de “Love” (Netflix, acelera aí com a segunda temporada, valeu?), botei roupa pra lavar e lamentei minha solidão por WhatsApp pra minha comadre and best Biba.

A comadre se compadeceu do meu pranto e enviou um vídeo do Bernardo falando: “Dinda, tô com saudade de você. Amanhã eu vou na casa de você“. Depois de chorar de alegria, rebato agora a proposta, Bezin: “e se a casa da Dinda fosse do ladinho da sua? Você já estaria brincando comigo agora?”

Ontem demos o primeiro passo para essa mudança e eu, mentalmente, mandei goela abaixo uns calmantes pra controlar o coração. A tal corretora entrou aqui em casa feito um furacão. Jogou a pilha imensa de papel que carregava nos braços em cima da mesa e começou a vasculhar todos os cômodos. Escondi rapidinho meu pijama debaixo do travesseiro e tirei a toalha molhada do Du da cadeira do computador, enquanto ele esticava o lençol da cama.

“Hum-rum, hum-rum… Muito bom. Bem legal. Tá ótimo. Legal isso aqui. Tá bem bonitinho”, ela dizia enquanto fazia umas anotações. E eu só pensando em acabar com aquilo tudo pra tomar meu banho, secar a juba e picar a mula pro meu fechamento em Curicica. “Então, assina aqui e está tudo certo. A gente começa o processo de anúncio e vamos nos falando. Vocês estão fazendo a coisa certa. Tchau, prazer”.

Mano, nessa frieza? Correria? E o café? A gente tá fazendo a coisa certa? Quem tem 100% de certeza disso? Como eu sei se isso é verdade? Cadê o livro com todas as respostas? Qual o sentido da vida? Mãe, cadê você?

Tasquei um abraço na quina da parede da sala com o corredor e desabei em lágrimas. Parecia que tinham me tirado um dente, ou um braço. “Mas essa é a nossaaaaaa caaaaaaasa! Essa parede é nossa, esse chão é nosso, essa rachadura e esse vazamento também são!”, eu pensei. “Mas a gente está fazendo a coisa certa, e tudo isso continua sendo nosso”, disse o Du.

Tá, calma, respira, pensa, solta o ar, toma uma água. Os astros dizem que seres de Gêmeos não gostam de mudança? Porque eu gosto, juro, mas sair do nosso cantinho, alugar pra outro alguém ainda sem nome, cara e passado…!

Respirei, tomei um banho, falei com algumas pessoas e fiz uma tabela tosca no meu caderninho dos prós e contras. Tenho uma história linda com esse apê, e ela começou antes mesmo do meu nascimento. Meu pai comprou esse pedaço de concreto cheio de sonhos que foram passados para minha vida quando a dele chegou ao fim. E eu fiz questão de tentar seguir a cartilha da felicidade proposta por ele, a dois, dentro desses 70m2. Mas a vida mudou, como tudo muda.

Não tenho mais minha avó para os dias de folga, ganhei um afilhado que sabe que a dinda “mora longe” dele, tenho os melhores amigos do mundo (e agora corredores amadores!) no outro canto da cidade, além do trabalho que sempre almejei e do escritório do Du.

Eu seeeeei que não dá pra ter 100% de certeza nunca, em nada (minha terapeuta cansou de repetir isso pra mim). Depois de reforçar esse mantra por algumas horas, digo: meu coração já está, digamos, 70% preenchido de coragem. Acho que estamos, ao menos, em direção ao novo certo. E juntos fica tudo mais fácil, né?! Partiu, então, pintar novas paredes por aí. E agora com a ajuda do Bernardo e de mais um montão de gente legal 🙂

“Tudo indo, minha filha…”

postTrabalho longe de casa e vivo de carona para fugir do insuportável 332 – Rio Sul / Projac. Aliás, que todos os santos protejam as boas almas que me ajudam diariamente. É meta de 2016 (assim como em todos os anos) perder o medo do volante e virar gente grande. Até ser dominada por uma onda de coragem, sigo na peregrinação.

A questão aqui é a seguinte: o ponto final de muitas caronas é a José Linhares, pertinho do Plataforma, esquina com a Lagoa-Barra. Paro ali, ando alguns metros e viro na Conde de Bernadotte, a rua da minha avó Eunice. A vontade ali, na bancadinha de esquina do Desacatto, é de tomar um shot de Rivotril.

Parece que a rua tem o cheiro dela. Do lado esquerdo, a Cobal e a barraquinha do João, onde ela comprava verduras. Na frente, a finada Sendas (hoje Pão de Açúcar). Um pouquinho adiante, o Chic Chicken, onde ela exagerava na compra do frango semanal. Ainda tem o Davi, que fica na porta da garagem, aquele rapaz que ajudava a levar as sacolas do mercado até o elevador, e a casa da tia Bilu, que desde do dia 20 de junho de 2015 nunca mais teve as janelas fechadas. Acho que o Jan esqueceu. Ou pouco importa mesmo.

Se fosse em outros tempos, eu entraria no número 26 da rua, mandaria um ‘oi’ para o Ronaldo, porteiro, e subiria até o andar dela para pegar um copo de água e perguntar como foi o dia. “Ah, tudo indo, minha filha. Tudo indo…”. Eu reclamava taaaanto desse “tudo indo”. “Vó, fala, pelo menos uma vez, que está tudo maravilhoso!”.

Enfim… Tenho um medo louco de mudar. É quase pior que meu medo de lugar fechado, ou de nunca mais ver o Du. Mas talvez a onda de coragem que promete se aproximar em breve para me fazer assumir o volante possa também me ajudar nessa questão. Andar por ali abre uma ferida no meu coração. D.i.a.r.i.a.m.e.n.t.e. Não passar mais por isso é jogar terra no buraco do luto? Sim? Não? Ou pouco importa mesmo?

Outro dia a Lara me mandou uma mensagem perguntando quando eu voltaria para nossa terapia semanal. Respondi que estou numa fase fitness, e com minha conta bancária é assim: ou malho, ou faço terapia. Por isso esse texto, e tanto outros. É importante falar ou escrever ou chorar ou rir por elas, vó e tia. A gente não discute isso normalmente, né? “Não pode falar de morte, imagina!”. Por quê? Eu acho, por exemplo, o trabalho do pessoal do Vamos Falar Sobre o Luto incrível.

Vale discutir (e divulgar) se meu apego todo é normal, se demora para passar, se tudo bem eu fugir da rotina e guardar por um momento todas as fotos, se tudo bem eu querer trocar de bairro sem parecer covarde ou egoísta. Diz que vale. E diz, pelo menos uma vez, que tudo está maravilhoso. Porque está. Só que de um jeito diferente. Mas isso pouco importa mesmo.

 

Quando R$ 1 vira R$ 1 mil em dois minutos

– Oi, é Marina? É o Zé.
– Fala, Zé, tudo tranquilo por aí?
– Tudo bem… Quer dizer, tem uns probleminhas, mas tamô resolvendo, né.
– Que probleminha?
– É que precisa passar lá na loja pra pegar mais saco de areia…
– Ah, tudo bem, pode passar lá que o Dudu já deixou a conta aberta.
– Tá. Daí então, Marina, vou aproveitar pra pegar uma peças que tão faltando aqui…
– Que peças?
– Uma coisa que a gente usa, e num tem, daí é bom comprar e daí a gente usa e fica tudo certo.
– Hum… umas coisas?
– É, coisa pouca…
– Tá.
– Ah, a senhora autoriza também pegar já a massa? É porque daí a gente adianta um lado enquanto quebra outro.
– Não é melhor fazer tudo junto?
– Ihhh não… Já vamos adiantar já, né! A casa da senhora vai ficar um brinco.
– Opa, assim que se fala, rs. Eu espero…
– Ah, outra coisa…
– Sim…
– O menino aqui tá precisando de lixa, já vou colocar na conta também então. Prá aproveitar, né.
– Ahram, pra aproveitar…
– Ah, e seu Luis, o que tá trocando aqui a tubulação, pediu mais duas varas do aquatherm e os misturadores pra fechar logo a parte da cozinha.
– Tá…
– Aproveitando…
– Aproveita, Zé, aproveita…
– Tem como colocar lá também as fitas que a gente tá usando aqui?
– Tem…
– Tá bom, então. Ah, e vou pegar mais uns sacos de entulho. A gente vai descer tudo amanhã.
– Ok.
– Ah…
– Deus do céu…
– Os meninos aqui tão pedindo pra ver com a senhora se tem como a senhora comprar um pãozinho no final da tarde. É pra adiantar o serviço e a gente não sair daqui né. A senhora já não passa aqui toda tarde? Então, é caminho.
– Pãozinho?
– É sim, pra aguentar a viagem pra casa. Mas esse você deixa na minha conta, tá? Eu faço questão!

Pode deixar, Zé, pode deixar…