Não é preciso o caos; vamos de mansinho

Eu não tenho conseguido ler. Nem escrever. Não tenho tempo, encaixe, nem saco. Não consigo parar e desacelerar o pulso para pegar um livro. Não permito que nenhum livro desacelere meu pulso – apesar de vários terem potencial para tal. Isso me dá uma agonia.

Meu pai Alexandre é o cara que me viciou em leitura. Todo domingo a gente caminhava até a banca da rua e comprava o jornal, revistas semanais e dois gibis. Eu tinha que fazer durar a semana, mas sempre fui péssima em economia, então no fim da segunda-feira já estava lá, repetindo os quadrinhos. Eu era bem pequena e já apaixonada por aquela viagem que só a literatura – seja ela de qual gênero – proporciona.

Anos depois, o passeio mais esperado era a livraria de todo sábado. A gente ia bater perna no shopping e se perdia pelas prateleiras. Ele comprava novos títulos, me apresentava clássicos, e a pilha da mesinha de cabeceira era abastecida com frequência. A saída também era grande. Como eu conseguia equilibrar a demanda com as tarefas de física ou os projetos de ciência? Nem os astros conseguem responder, mas tudo parecia fácil.

Hoje, é uma tortura me dar ao luxo de ler, sei lá, 20 páginas numa tacada só. Tem o Instagram para atualizar com a foto que tirei de manhã daquela árvore que tava linda, o trailer do filme que lançou que esqueci de compartilhar no Facebook, os cortes de cabelos que fulana pinou, a nova temporada de “House of Cards” que já saiu, a mala pra fechar para São Paulo. Tudo pra ontem.

Eu sou uma viciada por internet e tudo de lindo que a tecnologia oferece. Mas o scroll é um movimento libertino que só aumenta a ansiedade. A gente parece ter tanta coisa para fazer que esquece que ler é investimento próprio. Faz bem para o corpo e a mente. Te teletransporta pra um lugar que não é seu, mas passa a ser. Me leva de volta pra infância, que já passou e foi bem legal.

Sábado faço 30 anos, amanhã tenho a última terapia antes disso, e ontem dormi sem remédio (e sem celular, lendo “A Amiga Genial”, de Elena Ferrante). Quero que o urgente seja desacelerar e direcionar a atenção. Comecei bem: escrevi esse texto depois de boas semanas sem uma letra no papel. Não é preciso o caos; vamos de mansinho. Nem sempre é fácil – quase nunca é fácil. Mas quem disse mesmo que era pra ser?