Este é um texto sobre comida. E sobre vida também

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Tracei a meta assim que 2017 cruzou a esquina: me comprometo a malhar todos os dias, certinho, de segunda à sexta, e a encarar o “longão” aos sábados (ou domingos). Chego aos 30 anos em junho – e já estou apavorada, apesar de segurar a cara de “está tudo bem, tudo certo, sou empoderada”. Tenho cada amiga maravilhosa que se garante com uma plenitude invejável, de maiô decotado, brilhos, curvas, carão, pochete e pose. E é mentira descarada dizer que sou da mesma linha. Puff, sabe de nada, coração. É muita corrida e terapia no lance. Posso perder minha carteirinha de feminista por esse desabafo?

É do ser-humano ser um eterno insatisfeito. E é difícil pra cacete aceitar e adorar o que cada um considera um “defeito” (no corpo e na personalidade). Sobre os 30, tem muita gente (inclusive eu) que enxerga como um deadline. “O metabolismo muda por completo. Emagrecer passa a ser tarefa épica-heróica-game thronística. Muda cabelo, pele, humor, unha, ruga. Muda tudo”. E agora, cacete? Eu, que amo uma batata frita, que tô tentando eliminar a gordura lateral há 29 anos e ainda não aceitei o tamanho do meu quadril, fico como? Me taquei na esteira.

Balanço da meta hoje, 12 de fevereiro: por incrível que pareça, eu posso ganhar estrelinha com chuva de palmas. Consegui malhar todos os dias, e peguei gosto pela corrida. Mas só consegui essa proeza porque sei que a batata frita me aguarda no sabadão, glória ao senhor, amém, igreja. Não vou mandar o mimimi que comecei a correr só pra controlar o colesterol. Meu exame de sangue estava todo errado mesmo, mas mais do que isso, queria perder peso e ficar gostosa no limite que meu corpo pode ser.

Comecei correndo 1 minuto para 4 de caminhada. Era pesadíssimo pra mim. E fui aumentando, invertendo os números, traçando metas de distância. Três vezes por semana, 5k. E fui querendo diminuir o tempo, fazendo musculação pro joelho aguentar o tranco, correndo na rua, aprendendo a respirar. Quero longão de 7k no mínimo aos sábados. Tem dias que é chato pra cacete. Troco pela corda, pelo circuito, por qualquer outra coisa. Mas hoje não deixo mais de ir. Ainda é pelo corpo-musa-fitness? Com certeza. Mas é também pelo prazer em saber que hoje eu controlo minha cabeça para completar aquela guerra. Parece besteira, mas não é. É uma alegria sem fim perceber sua evolução – e sem abandonar a batata frita.

Outro dia vi uma matéria com uma nutricionista francesa que é contra esse negócio de proibir certos tipos de alimento. O que precisa mudar é o nosso jeito de encarar a comida. Ela é contra também o “dia da jaca”, porque a gente acaba comendo muito mais do que a gente realmente quer só porque é “o dia da jaca”, saca? Ela diz que se você se permitir comer o que quer, o desafio é fazer em pequenas quantidades e dosar a vontade. Quer chocolate? Come um quadradinho hoje e outro amanhã. Não precisa traçar a barra toda. Quer batata frita? É só pedir. Amanhã a gente compensa na academia, e fica todo mundo em paz.

É aquela velha história do equilíbrio, né? Ninguém aqui é artista do Cirque du Soleil, mas é cada acrobacia que a gente sonha em fazer. Comece a traçar a sua – seja ela comportamental ou não. Bora calçar o tênis e respirar fundo. Os 30 estão logo ali, e sou eu que preciso mudar essa fama deles, e não o contrário.

Ainda 28, virando 29, que é quase 30

Full of dreams
Outro dia me dei conta que em junho do ano que vem completo 30 anos de vida. 30 anos inteiros vividos por aqui. 30 anos inteiros sem entender o porquê de ser gente e não planta, ou de não ter 1,70m ou de não gostar de doce. Parece que a gente vai ficando mais velha e mais cagona também. Entrei meio que em choque quando percebi sobre a data. “Mas 30 anos… E agora?”.

Foi o que bastou para o desespero dominar três dias da minha vida. Momento da verdade: já fui da turma que achava que crise de pânico/ansiedade era um mecanismo utilizado para chamar atenção de alguém ou alguma coisa. Até acontecer algumas vezes de maneira estranhíssima comigo.

Sempre fui ansiosa, acho que desde que nasci. Tenho o dom de pensar em todas as situações lá na frente, para evitar a merda. Traço todas as possibilidades, e se por acaso não tenho esse panorama ou controle na mão, entro em parafuso. Por exemplo: tenho como controlar essa questão de fazer ou não 30 anos – veja bem, olha a piração – ano que vem? Não. Lascou, então.

Já dei um Google em “creme antirrugas maravilhoso pré 30” e fiz uma série a mais de agachamento para eliminar a celulite da bunda. Dizem que quando você vira balzaca é muito mais difícil emagrecer. Se meu metabolismo é todo ferrado com 28, o único jeito é correr atrás agora ou entregar meu corpo como sacrifício para as blogueiras fitness aos 30.

A grande questão é: como dominar esse demônio inquieto que teima em assombrar nossa mente? Difícil, minha amiga. E não vem com esse troço de Carpe Diem pra cima de mim não que viro bicho. Juro que queria ser zen, fazer ioga, comer alga como snack e não falar palavrão, mas há 28 anos sou o oposto disto. E faço 30 ano que vem prometendo não mudar muito.

Parece ridículo, mas uma das minhas crises de ansiedade (ainda conto as punks nos dedos das mãos, amém, igreja) foi dentro do avião indo para o México. Estava sozinha e ainda tinha cinco horas de viagem para encarar. Pressão no pé, boca branca, coração acelerado, iria morrer com certeza com certeza e entrei em desespero porque não tinha como sair dali para pegar um arzinho. Meti um calmante goela abaixo e só melhorei quando cantarolei como mantra a música do The Beach Boys fingindo ser Drew Barrymore em “Como Se Fosse a Primeira Vez”. “Wouldn’t it be nice if we were older, then we wouldn’t have to wait so long…”

E daí fui acalmando, e esquecendo, e pensando… E hoje fui analisando que, antes dos 30 anos, ainda tenho o 29 inteirinho pela frente. E ele pode ser maravilhoso. Porque até que é bom ser gente grande e fingir ter autonomia sobre tudo (na verdade, a gente não tem, tá? Mas isso a gente não verbaliza). Até que é bom não precisar esperar para isso ou aquilo, porque, afinal, temos idade para tal.

O Du disse que a fase dos 30 é a mais bonita da mulher. Estou pensando até em cancelar a compra do creme antirrugas. Vou esquecer de passar mesmo. Ah, e tem mais: eu ainda tenho 3 meses de 28 anos! Nova meta: correr 10km até dezembro e almoçar bife com batata frita pelo menos um dia sem peso na consciência. Pode chegar, Trintão! Eu e o 29 faremos de você o muso do verão, com ou sem celulite.