Toma aquela dipirona e vai

illustration thinking

Daí toma uma dipirona e vai. Começa o dia com coragem. Toma aquela dose só pra brecar a enxaqueca que promete chegar a partir das 12h. Vai com melancolia e tudo, arrastada, pesada. Tem dias assim: a gente acorda semi-doente, deve ser gripe, dengue, só tristezinha. Sem motivo (sempre tem motivo). Tá ali, escondido, ou escancarado, dentro do coração. Faz o teste: analisa datas, dados, amigos, jantares, fotos, lembranças no Facebook. Alguma coisa bateu aí.

Toma aquela dipirona e vai. Porque tem vezes que é bom curtir uma dorzinha de leve, solitária. Bota o fone e dá play naquele “Wonderwall” maravilhoso. Chora depois daquele filme francês. Se permite ficar 20 minutos chorando depois da última cena. Consola a amiga e se consola junto. Falar para o outro ajuda a elucidar o que está dentro. Tem o nome de terapia.

Toma uma dipirona e vai. Volta pra terapia, ou honra direito a mensalidade da academia. Se mexe, porque a vida segue e você precisa seguir com ela. Sente saudade do que não foi, sente saudade do que já foi. Imagina como poderia ter sido. Ou tenta fazer acontecer. Dá pra pensar e repensar. E chorar ou lamentar. Ou então, foda-se.

Toma uma dipirona e vai, com coragem, porque tudo é fase. Faz um blog, escreve, grita. Não interessa se tem sentido ou não. Não interessa se é perdido ou não. Se pra um vale a pena, então pronto. Já é bingo. E se esse um é você, tá na mosca. Toma e vai.

Três corações 

Aprendi desde cedo que pai é um negócio que vai muito além do sangue. Todo mundo vem de alguém, guarda informações genéticas de outra pessoa que veio antes de você, mas não é isso que define o que você é. O que define é o amor.

O meu primeiro amor deixou esse mundo sem sentido muito cedo, logo depois que dei meus primeiros dois passos e falei “papa”. Eu não tenho lembrança do seu rosto, eu não me recordo da sua voz, não sei como era o sotaque, nem como gargalhava. Mas sei que vim dele, e que ele me encheu de coisa boa.

Tenho seus olhos, seu sorriso torto, e dizem que até o humor é o mesmo. Que lindo. Ele conseguiu me ensinar a andar só por amor, e que bom que foi tão forte para isso. Não me interessa se seu corpo não aguentou o tranco. Todos somos feitos do mesmo material, e esse é finito. Só o amor que não é.

O amor ultrapassa planos, ultrapassa gerações, memórias, histórias, pais e filhos. Eu ganhei um segundo amor anos depois, que me ajudou a continuar andando. Ele pavimentou todas as minhas decisões, com cautela e muito carinho. Ele se tornou meu norte. Ele me deu irmãos, os melhores que eu podia querer. Ele me dá amor.

Feliz sou eu, que tenho dois pais para contar história. Feliz é meu álbum de família, lotado de avós, primos e tios, de várias etnias. Feliz serão meus filhos, que herdarão sangue gaúcho e influência japonesa, tudo num mesmo caldeirão. Feliz serão meus netos, e meus bisnetos, que saberão desde cedo o significado do amor incondicional de um pai.

Feliz dia, para os meus, e para o de vocês ❤️

Para acreditar mais no “pool” da vida

Num restaurantico, perto de casa, dia desses:

– E como é o nome dele?

– Tom.

– Tom?

– É. Tom. Por quê?

– Sei lá. Já tem cara de ser filho de pais alternativos.

– Ué, e isso é necessariamente ruim?

– Não. Só estou analisando. Deixa eu ver uma foto.

(A amiga A mostra foto de perfil do Tom pra amiga B)

– Ah, uma graça! Tem cara de moleque. Cuidado, hein!

– Por quê?

– Chama Tom, cresceu em casa de espírito livre, tem cara de moleque… Só deve fazer merda.

– Ôh, Cris! Você tá aqui para me ajudar, ou não? Eu, hein!

– EI, CALMAÊ! Só estou analisando!

(Silêncio)

– Já sabe se tem amigo em comum com você?

– Pelo que vi, não tem. Mas é conhecido do Fabinho, sabe? Que joga no 10 com os meninos?

– Hum, sei.

– Amanhã vou perguntar pras meninas se elas conhecem…

– E vocês já se falaram mais vezes?

– Só uma. Depois da corrida, ele me adicionou e tal. A gente se falou rapidinho e só. Mas tô querendo puxar papo agora eu, e já marcar mais alguma coisa.

– Eu não sei… Ainda tô tentando entender como foi que você faturou um bofe no Uber Pool. Eu tô achando que é golpe, que ele vai te levar pra um sítio, coisa assim, te roubar, sei lá o que vai fazer com você.

– Tá doida, amiga? Vai nada! Ele desceu da corrida antes, ficou ali perto da Selva de Pedra. Eu tô te achando muito quadrada, Cristiane! Deus me livre! Acredite mais nos “pools” da vida, miga! Se é pra pegar carona, borá pagar barato e pegar o crush certo! Sabe esse troço de caçar Pokemon? Pois eu caço crush no Uber!

E você aí, só pensando na corrida mais barata… Go, girl!😉

A Dani vai voltar pra São Paulo

Outro dia, a Maria Eduarda me perguntou se eu tinha vontade de voltar para São Paulo. Passei 15 anos (é isso tudo mesmo?) lá. Em certo momento, nesse meio de caminho, eu era mais paulista do que fluminense. Me preocupei com essa graça alcançada: estava cada vez mais difícil manter o charme do sotaque, e eu quase me rendi ao a-ê-i-ô-u.

Eduardo não moraria, naquela época, em São Paulo nem que o mar virasse sertão, e a selva de pedra virasse a ponta do Arpoador. Então, era o momento. Liguei pra vovó, montei minha mala, finalizei o estágio no Estadão e fui pegar sol no Posto 11. Era o início da minha idealizada vida como carioca quase oficial (a certidão está aí para me lembrar que Volta Redonda é o nome da cidade de nascimento. E isso não é efetivamente uma lamentação).

Foi tudo muito bom, e tudo muito bem. Ainda está sendo. A vida é mais leve no Rio, eu disse pra Maria Eduarda. O horário de verão faz todo sentido aqui. Assistir novela de madrugada com minha vó fazia todo sentido pra mim. Encontrar com o Eduardo a qualquer hora, tomar suco de conde com maracujá e caprichar no sotaque: tudo fazia – e ainda faz – bem mais sentido.

Mas a Dani vai voltar para São Paulo nesta semana. E ela está muito feliz com isso. Muito mesmo. E daí a Maria veio com essa pulga: “meNina, você tem vontade de voltar pra São Paulo?”. Porque Maria sonha com Recife, seu amor, quase todos os minutos do dia. E Dani planejou o retorno perfeito pra terrinha por quase todos os meses como moradora de Ipa-Copa. E eu? Fico onde?

Sou de lá e daqui também, marinheiro. E isso atesta e justifica minha casa 10 em Gêmeos. Sou arroz integral e Cheddar McMelt, clássico e folk, Spice Girls e Eça de Queiroz, Rio e SP. Difícil equilibrar tanta coisa, mas o ascendente em Virgem anda fazendo um bom trabalho.

Essa ponte entre a raiz-matriz e os galhos que a gente espalha por aí sofre, por vezes, algumas interferências e dificuldades. É o sonho que faz a gente seguir em frente, voltar ou seguir, e ancorar barco. A manutenção é feita com uma ponte-aérea vez ou outra para um chopp entre melhores amigos. Ajuda também: um quadro aqui, uma florzinha ali e um belo dum telefonema para minha mãe. Acalma alma.

O Bonno vai ficar mais feliz no frio de SP, Dani, e você vai poder sair com a Mari para fazer feira e assistir ao DVD do César Menotti e Fabiano sempre que a vovó pedir. Além disso, aproveita que o tempo seco deixa o cabelo melhor para você ficar ainda mais gata e humilhar as “inimigaiz” tudo! Vai na fé da sua verdade, que não costuma faiá.

Aperta logo esse play, menina!

Aconteceu um troço estranhíssimo essa semana. Desci a ladeira de casa com olheiras ao sol, sem base alguma, fazendo uma trança pra controlar a juba e com hidratante concentrado no antebraço, pronto para ser espalhado. A figura da doideira nossa de cada manhã. Estava afobada para encontrar a santa carona que me levaria ao trabalho (Deus abençoe essas boas almas, amém) quando avistei uma mulher vindo na minha direção. Monte aí o look: casaquinho listrado, calça preta, cabelo preso de qualquer jeito e com óculos escuros básico, redondinho. Bati olho e sabia que conhecia aquela moça de algum lugar? “Amiga da minha mãe? Não. Vizinha? Não. Da academia? Não também…”. Estava quase jogando a toalha quando me veio: “É a Beatriz Milhazes!”

Se o nome não te causou reação alguma, faça uma pausa e jogue no Google. Achou? Segue o jogo.

Ainda usava colar de semente e sandálias da Side Walk na PUC-SP quando fiz uma aula de jornalismo cultural e conheci a obra de Beatriz. Achei incrível de cara. É o tipo de coisa que me alegra e interessa. Pirei tanto nessa tal aula que decidi, ali, tatuar no ombro esquerdo um pedacinho do quadro “Noite de Verão” – ticado da lista de desejos em janeiro de 2010.

Pois bem, voltando: eu, ela, a calçada do Talho Capixaba, a carona me esperando, a vergonha me podando, e foi. Quando pisquei, ela já tinha passado. Não falei um A sequer. Não parabenizei, disse que sou fã, não paguei mico, não mostrei tatuagem, não fiz snap com filtro bacana, nada. Congelei e vi passar Beatriz do meu ladinho. Não tenho ideia do que eu falaria caso ela desse trela e parasse pra me ouvir. Fato é que perdi a chance. Fuén, fuén, fuén.

Rachel McAdams e ruivinho: ❤️

Calhou disso rolar dois dias depois de assistir “About Time” (que tem no Netflix #dicadaamiga). O Domhnall Gleeson, um ruivinho gracinha que também fez “O Regresso”, vive um cara que descobre aos 21 anos que todos os homens da sua família têm o poder de voltar no tempo. Basta entrar em algum cômodo escuro, cerrar os punhos paralelos ao corpo, se concentrar e voltar para qualquer lugar e/ou situação vivida na sua vida (não dá, por exemplo, pra voltar geral na História. É só na sua própria vida mesmo).

Na hora que Milhazes passou por mim, só queria ser o ruivinho gracinha do filme. Teria voltado e parado a moça. “Mermão, parabéns por tudo que conquistou com seu trabalho. Sou fã. Olha a tatuagem. Obrigada por tudo. E por nada. Enfim”. Tava feito. Passava o recado e voltava para o meu presente tranquilinha para pegar a carona feliz. Mas não rolou quartinho escuro + poderes mágicos naquela situação, nem em tantas outras.

Louco esse negócio de viver e tal. Como disse Maria Ribeiro em sua última crônica no O Globo, a vida é essa coisa quase boa. Porque esse discurso de “vou viver tudo que tenho para viver, a vida pode acabar, vamos pular sem medo, vamos comer e dane-se o carboidrato, vamos beijar e se amar e tá tudo certo” é lindo e difícil para caralho, com perdão do palavrão grosseiro. Mas é!

Hora de brincar de Maria Eduarda e seus enigmas: e se você tivesse esse poder proposto no filme? Voltaria para quê? Teria coragem para encarar aquela briga? Deixaria de comer aquele Cheddar McMelt? Falaria na cara daquele sonso tudo que tem vontade? Mandaria o síndico plantar coquinho no mato? Compraria ingresso pro show? Deixaria mesmo de usar aquele batom? Marcaria, finalmente, todos os exames que precisa? Telefonaria mais? Marcaria mais almoços? Enfrentaria aquele drama? Perdoaria mesmo? Teria mesmo filho neste momento? Falaria com ela? Falaria com ele? Abriria seu coração? Gastaria aquela grana? Deixaria de gastar aquela grana? Falaria eu te amo de novo e mais uma vez?

A garantia é… Não tem garantia, não. Tem experiência. Sucesso, aqui, é incógnita. Porque nunca se sabe o que o outro lado vai falar, volte você quantas vezes no tempo resolver voltar. Rebobinar não é o lance. Vamos tentar – eu e você- apertar o play sem medo. De novo: é mais difícil do que entrar no quartinho escuro e cerrar os punhos. Mas vale muito mais a pena. Coragem, menina! Milhazes está passando por você gritando “coragem”!

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