Uma carta para Renato

Você me falou hoje que está com saudade. E que eu tenho que escrever. Eu disse que não tenho nada pra falar, e você rebateu dizendo que eu preciso “escrever por escrever, porque sempre sai alguma coisa”. Se Maria Ribeiro pode fazer uma peça que não é uma peça, mas que tem amigos e muito significado, eu posso escrever um texto que não é um texto, mas é pra você. Não me comparando com Maria, que além de musa agora divide uma música de Gil com a Déia, mas encarei a ousadia.

OBS: uma boa trilha pra esse texto é “Três Dias”. Dá o play e vem.

Você viu a Gleisi ontem comendo marmita? Que dia, meu Deus. Aliás, não posso esquecer a marmita. Estou numa semana detox, virando esse povo insuportável que faz dieta e corre. Mentira, eu queria ser assim. Mentira, não quero não. Só quero ser magra e condicionada pra correr uma Meia Maratona. Tô com isso na cabeça. Lembra quando você tava bitolado de academia? Acho que te prefiro agora. Malhar dá trabalho, mas é bom. Tipo a vida, né.

Lindo o livro da Dara! O lançamento é hoje? Acho que quero escrever um livro também. Fiz um curso outro dia e me empolguei. Faz tempo que não escrevo o que vem do coração. Fico tentando achar um primeiro parágrafo perfeito, um tema fodão. Dou play em Delicate, do Damien, porque deprê parece que a gente rende mais. É nesses dias de feeling blue que os projetos são elaborados, as questões debatidas e os filhos são feitos.

E o seu coração? Você fala de amor como ninguém. Sofre como ninguém. Lê poesia e enxerga safadeza como ninguém. Deve beijar e transar bem também. Você faz um belo caldo compromissado ou no Tinder. Você tem esse lance de ver a vida sempre numa nice. Me ensina? Não vem com esse papo que só a cerveja salva, porque eu tô de dieta e meu negócio agora é água. E nem começa com Bethânia pra cá e pra lá, porque com ela não dá pra competir, só contemplar. Como com você.

Dá um calor no coração saber que você existe, Renato. Eu quero que você venha comigo todo dia, todo dia. Você me abre os olhos, a alma, me incentiva e me ilumina. Você fala alto, não tem vergonha, usa camisa florida, tá na onda da pochete, tem bocão, o que mais um homem precisa? Outro homem? Ah, para! Vive de crush! Ou vive do seu amor, do meu amor, do amor da Paty, da Dara, daquela sua outra amiga-irmã que eu não conheço mas admiro pacas. Vive do amor dos seus pais, da Jolie, da Abolição, do Centro, do Rio, do carnaval. Amor não te falta, meu bem. O que pode faltar pra gente é aquela camisa linda da Zara. Mas rola um papo de trabalho escravo e tal, então desencana dela.

Desencana do primeiro parágrafo perfeito, do tema fodão, das angústias, do dia nublado. Deixa o barco seguir, ancora onde tiver vontade. Ama o que é recíproco e escreve o que dá no peito, não no contra-cheque. Talvez a carta seja pra você, mas diga muito mais sobre o que eu não queria dizer. Sabe como é, né: tô meio feeling blue. Bom é assim, quando não dá trabalho. Tipo como deveria ser a vida.

Eu estava aqui pensando…


Oi. Acho que quero mudar o corte – de novo. O que você acha? Talvez seja o cabelo o que mais muda em mim. Não, espera. Tem mais. A gente listou um monte de coisa ontem – sobre nós e sobre vários outros.

Endereço, trilha-sonora, a terra dos vasinhos da varanda, a vista lá pra fora, o motorista, a dose do remédio, a marca da base importada, a bolsa do dia a dia. Muda a gíria do momento, o óculos de grau, o grau, a temperatura, a chaleira, o pão branco pelo integral, o brinde. Muda o motivo da risada, a capa da almofada, o tom daquela música, o ponto do ônibus.

Muda a pauta, muda o orçamento, muda a rotina da manhã, muda o objetivo da corrida. Não se corre mais, se vive. Muda a urgência, o olhar, o toque, a mão, o lado do beijo. Muda a opinião, a razão, a verdade, mudou tudo mesmo? Pode mudar, e depois, se quiser, aperta o reset. Muda a psicóloga (ai que preguiça), muda o drink, muda a proteína. Muda por fora e por dentro, pra pior e pra melhor.

O contrato, o quadro da sala, o lado do vinil. A aposta, o gol, o nome do porteiro. A cor das cortinas, o horário do voo, o deadline. O show preferido, o abraço querido, a atenção redobrada. O dia do pagamento, a senha do cartão, camisa pra dentro ou pra fora?, Gabriela ou Audrey?, Galeão ou Santos Dumont?.

Só não pode mudar a sensação boa que é pular de paraquedas. Não pode mudar o vento na cara, os braços abertos e a paixão. Se a gente conseguir garantir isso aí, tá tudo de boa. Dá pra ir ao fim do mundo e voltar sem medo de ter medo de mudar – apesar de ser de Gêmeos com ascendente muito bem estacionado em Virgem.

Já falei demais. Vou logo marcar um horário no salão pra ver o que tem ali na esquina da frente. Vou levar um casaco pra você (vai que faz frio, né?). Me encontra lá? Então, beleza. Beijo, tchau.

Não é preciso o caos; vamos de mansinho

Eu não tenho conseguido ler. Nem escrever. Não tenho tempo, encaixe, nem saco. Não consigo parar e desacelerar o pulso para pegar um livro. Não permito que nenhum livro desacelere meu pulso – apesar de vários terem potencial para tal. Isso me dá uma agonia.

Meu pai Alexandre é o cara que me viciou em leitura. Todo domingo a gente caminhava até a banca da rua e comprava o jornal, revistas semanais e dois gibis. Eu tinha que fazer durar a semana, mas sempre fui péssima em economia, então no fim da segunda-feira já estava lá, repetindo os quadrinhos. Eu era bem pequena e já apaixonada por aquela viagem que só a literatura – seja ela de qual gênero – proporciona.

Anos depois, o passeio mais esperado era a livraria de todo sábado. A gente ia bater perna no shopping e se perdia pelas prateleiras. Ele comprava novos títulos, me apresentava clássicos, e a pilha da mesinha de cabeceira era abastecida com frequência. A saída também era grande. Como eu conseguia equilibrar a demanda com as tarefas de física ou os projetos de ciência? Nem os astros conseguem responder, mas tudo parecia fácil.

Hoje, é uma tortura me dar ao luxo de ler, sei lá, 20 páginas numa tacada só. Tem o Instagram para atualizar com a foto que tirei de manhã daquela árvore que tava linda, o trailer do filme que lançou que esqueci de compartilhar no Facebook, os cortes de cabelos que fulana pinou, a nova temporada de “House of Cards” que já saiu, a mala pra fechar para São Paulo. Tudo pra ontem.

Eu sou uma viciada por internet e tudo de lindo que a tecnologia oferece. Mas o scroll é um movimento libertino que só aumenta a ansiedade. A gente parece ter tanta coisa para fazer que esquece que ler é investimento próprio. Faz bem para o corpo e a mente. Te teletransporta pra um lugar que não é seu, mas passa a ser. Me leva de volta pra infância, que já passou e foi bem legal.

Sábado faço 30 anos, amanhã tenho a última terapia antes disso, e ontem dormi sem remédio (e sem celular, lendo “A Amiga Genial”, de Elena Ferrante). Quero que o urgente seja desacelerar e direcionar a atenção. Comecei bem: escrevi esse texto depois de boas semanas sem uma letra no papel. Não é preciso o caos; vamos de mansinho. Nem sempre é fácil – quase nunca é fácil. Mas quem disse mesmo que era pra ser?

Pré 30 – ou só mais um dia daqueles

A tapioca queima, o elevador quebra, acaba o amaciante, o ovo escorrega da mão no chão limpinho da cozinha. A pitangueira reclama do novo vaso, cai o maior temporal, acaba a cartela da dipirona. A gasolina chega no talo, o cartão de crédito fica em casa, cai a ligação com a mulher da Brastemp nos finalmente. A gente chora.

Tem dias que nossa senhora do perpétuo socorro, meu deus, jesus de nazaré, todos os deuses, santos, anjo da guarda e fada do dente. Não adianta clamar, dopar, chorar, enviar, checar, se envergonhar, marcar terapia, tomar passe, dar play na nova do John Mayer. Não dá certo mesmo, trava tudo.

Trava coluna, pescoço, lombar, as pernas, panturrilha. Trava a corrida, o funcional, a dieta, a rotina, a cabeça. O incentivo, a criatividade, a vontade, o motivo e a razão. Tem razão e não tem. Pouco importa, não dá certo mesmo.

A gente erra na roupa, escolhe a sandália errada, passa o creme trocado, não faz a cama, esquece de recolher os panos no varal, deixa o lixo aberto, não saca o dinheiro da diarista, esquece de cobrar o boleto do condomínio. Cadê aquela guia do exame? Perdi também aquele lenço. O top preto tá lavando, cadê o sutiã preto? Acho que tá me dando gripe. Ih, esqueci o remédio da tireoide! Deixa, hoje nada dá certo mesmo.

Não dá para fazer graça, nem assistir “13 Reasons Why”, nem comprar pão no mercado. Não dá para tomar aquele chope, comprar todos os presentes, aprender finalmente a fazer baliza. Não dá para tirar as fotos da viagem do celular, nem passar a vassoura na casa, nem pensar naquela dinâmica, porque precisa fechar o personagem antes.

Não dá para fazer nada. Quer dizer.

Dá é pra ficar quietinha, desejando o molezão daquele remedinho delícia, xingando a análise, mas contando os dias pra ela chegar. Dá para ligar pra mãe, pro pai – que está de aniversário este fim de semana -, para os irmãos para sonhar com nossa viagem juntos. Dá para sentir saudade da amiga, puxar o cobertor e jogar candy crush, porque já já eu passo dessa fase. Só mais uma vida, e eu passo. Vai dar certo.

É só esperar que passa

“Não me vem com chá de hibisco ou erva-doce. Pinga uma cachaça para fazer logo o efeito desejado. E falar que você não se incomoda com mosquito também é mentira purinha. Eu carrego o Off na nécessaire pra tudo quanto é lugar, junto com uma dipirona, dramim e tandrilax (que é vida).”

Essa sou eu há 20 dias, começando as férias mais solares da minha vida. Hoje é o penúltimo dia, e que pecado nunca ter tirado uma folga considerável para curtir a natureza. Que poder de cura revigorante – junto com uma dipirona, elas são imbatíveis 😉 Esqueci dos problemas, das contas, das calorias, dos sapatos fechados. Só quis saber de bons amigos e belas histórias de vida. Obviamente, já estava louca pra voltar, porque não sobrevivo sem a cidade e o barulho da britadeira na rua. Mas desacelerar é tão importante, né… Voltar a ouvir, a ter paciência, a aprender, a olhar sem hora marcada.

Na primeira parte das férias, conheci rapidamente um cara ótimo. Lá pelas bandas de Angra dos Reis/Ilha Grande, descobrimos uma praia pequena, inacreditavelmente linda, quase vazia tirando uns dois ou três que dormiam perto da sombra de um coqueiro. Enquanto a gente explorava minimamente a região, parou por ali um casal para limpar o peixe do almoço na beira da água. O nome dele é Robinson, mas “todo mundo fala Jão“. Daí, segue:

– Como é o nome desse lugar?
– Praia de Passaterra. É tudo Sítio Forte, mas essa é a primeira enseada.
– E o senhor mora aqui?
– Moro…
– O senhor deve ser estressadão, né, rs?
– Ahhhh sou, nósenhora… Sou muito (com uma risada contagiante). Tô aqui há seis anos, eu e minha senhora. Sou construtor. Aquela casinha amarela lá em cima, tá vendo? É a nossa.
– Uau! Que paraíso! O senhor não fica entediado?
– Nããão… Tem muita coisa pra fazer de trabalho. E quando não tem coisa, não tem coisa.
– E como faz se alguém passa mal, por exemplo? Cadê a farmácia?
– A gente espera o barco passar pra levar na cidade… Passa de 20 em 20 minutos durante o dia.
– 20 minutos??? E se a pessoa tiver um treco durante essa espera?
– Ué, se tiver um treco, teve, ué. E qualquer coisa também, é só esperar que passa. Às vezes precisa nem do barco… Toma um chá, descansa um pouco e pronto.

Aprendi com Seu Jão que estar de férias é entrar num processo de cura da mente. Depois, do corpo. A gente precisa parar, esperar o barco chegar para ver se realmente tem que embarcar nele. A gente precisa olhar para dentro e ver se tudo não passa de uma ansiedade sem sentido, de uma crise de estresse covarde.

Respira.

Olha aquele verde que coisa mais linda. Olha o siri querendo pegar no pé de alguém. Olha aquele peixe tranquilão só nadando, nadando, nadando… Só olha e respira. Meditação deve ser isso: esvaziar por completo para depois preencher tudo de paz. Sol, sal, tempo, amor, amigos e histórias: meu rivotril in natura.

Este é um texto sobre comida. E sobre vida também

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Tracei a meta assim que 2017 cruzou a esquina: me comprometo a malhar todos os dias, certinho, de segunda à sexta, e a encarar o “longão” aos sábados (ou domingos). Chego aos 30 anos em junho – e já estou apavorada, apesar de segurar a cara de “está tudo bem, tudo certo, sou empoderada”. Tenho cada amiga maravilhosa que se garante com uma plenitude invejável, de maiô decotado, brilhos, curvas, carão, pochete e pose. E é mentira descarada dizer que sou da mesma linha. Puff, sabe de nada, coração. É muita corrida e terapia no lance. Posso perder minha carteirinha de feminista por esse desabafo?

É do ser-humano ser um eterno insatisfeito. E é difícil pra cacete aceitar e adorar o que cada um considera um “defeito” (no corpo e na personalidade). Sobre os 30, tem muita gente (inclusive eu) que enxerga como um deadline. “O metabolismo muda por completo. Emagrecer passa a ser tarefa épica-heróica-game thronística. Muda cabelo, pele, humor, unha, ruga. Muda tudo”. E agora, cacete? Eu, que amo uma batata frita, que tô tentando eliminar a gordura lateral há 29 anos e ainda não aceitei o tamanho do meu quadril, fico como? Me taquei na esteira.

Balanço da meta hoje, 12 de fevereiro: por incrível que pareça, eu posso ganhar estrelinha com chuva de palmas. Consegui malhar todos os dias, e peguei gosto pela corrida. Mas só consegui essa proeza porque sei que a batata frita me aguarda no sabadão, glória ao senhor, amém, igreja. Não vou mandar o mimimi que comecei a correr só pra controlar o colesterol. Meu exame de sangue estava todo errado mesmo, mas mais do que isso, queria perder peso e ficar gostosa no limite que meu corpo pode ser.

Comecei correndo 1 minuto para 4 de caminhada. Era pesadíssimo pra mim. E fui aumentando, invertendo os números, traçando metas de distância. Três vezes por semana, 5k. E fui querendo diminuir o tempo, fazendo musculação pro joelho aguentar o tranco, correndo na rua, aprendendo a respirar. Quero longão de 7k no mínimo aos sábados. Tem dias que é chato pra cacete. Troco pela corda, pelo circuito, por qualquer outra coisa. Mas hoje não deixo mais de ir. Ainda é pelo corpo-musa-fitness? Com certeza. Mas é também pelo prazer em saber que hoje eu controlo minha cabeça para completar aquela guerra. Parece besteira, mas não é. É uma alegria sem fim perceber sua evolução – e sem abandonar a batata frita.

Outro dia vi uma matéria com uma nutricionista francesa que é contra esse negócio de proibir certos tipos de alimento. O que precisa mudar é o nosso jeito de encarar a comida. Ela é contra também o “dia da jaca”, porque a gente acaba comendo muito mais do que a gente realmente quer só porque é “o dia da jaca”, saca? Ela diz que se você se permitir comer o que quer, o desafio é fazer em pequenas quantidades e dosar a vontade. Quer chocolate? Come um quadradinho hoje e outro amanhã. Não precisa traçar a barra toda. Quer batata frita? É só pedir. Amanhã a gente compensa na academia, e fica todo mundo em paz.

É aquela velha história do equilíbrio, né? Ninguém aqui é artista do Cirque du Soleil, mas é cada acrobacia que a gente sonha em fazer. Comece a traçar a sua – seja ela comportamental ou não. Bora calçar o tênis e respirar fundo. Os 30 estão logo ali, e sou eu que preciso mudar essa fama deles, e não o contrário.